No Happily Ever After: 2° Parte

Agosto é um mês que eu gosto muito. E, não simplesmente pelo fato ser meu aniversário (19), mas, por ser simplesmente “Agosto”. É um mês em que eu paro para analisar a minha vida. Mês em que eu tenho/sofro vários frenesis. É bom e, ao mesmo tempo, é ruim. Mas, antes de entrarmos em agosto e, depois de um mês inteiro encubado em casa, eu saí com duas amigas minhas, a Nathalia e a Vanessa. Fomos à uma balada. Foi incrível, nada do que eu esperava ou desejava, mas, me distraiu, me fez olhar o mundo e, ser notado por ele.

Olha, chega! Vou para de reclamar, de sofrer um pouco, ou de fazer uma “Heloísa” da vida (pelo menos por um mês). Não vou mentir e dizer que durante alguns dias do mês passado e, principalmente, da última semana de férias eu me senti triste, mas, rapidamente me ‘restabeleci’. Como já disse, eu sai para uma balada, em 31 de Julho, e foi incrível, e foi uma oportunidade que eu tive para tentar esquecer por algum momento o Jonas.

As voltas as aulas foi algo que também me puxou do mundo de alienação, que eu vivi em Julho, para a realidade. Eu sempre soube que fui alvo de comentários e piadas maldosas em relação a minha sexualidade, mas, eu não sabia que isso poderia ganhar proporções ainda maiores, depois de uma simples confusão de uma professora.

Na terça-feira, dia 3 de agosto, estava na aula de física – matéria que eu odeio -, e de repente uma colega que senta atrás de mim, pôs a mão sobre meu ombro e eu me virei por um momento para ver o que ocorria, enquanto isso, a professora estava escrevendo e explicando algo no quadro negro. E, por um minuto eu me dispus a ouvir o que a minha colega queria me dizer e, enquanto ela me contava sobre algo – que, por sinal, eu nem lembro agora -, a professora se virou e disse: “Márcio! Presta atenção”.

Naquele momento, eu vi a sala em silêncio por um segundo, até que as gargalhadas, buxixos e comentários surgiram aos poucos. Eu me virei para a professora e, ela estava a risadas, enquanto eu olhava seriamente para ela. E, então eu disse: “Márcio? Quem é Márcio?”, ela me respondeu que tinha se confundido, por que nós éramos “parecidos”. Todos da sala riram – menos meus reais amigos -, mas, até a menina que tinha me chamado atenção estava rindo da minha cara. Inicialmente, eu não vi problemas, no engano, até por que, eu nem me lembrava e nem suspeitava quem era esse tal Márcio, com quem ela me confundiu.

Foi então, que eu lembrei que esse tal Márcio, é um menino do segundo ano do ensino secundarista, que tem trejeitos efeminados e, sofre contantes comentários preconceituosos e maldosos referente a isso. Eu já sofri com esse tipo de preconceito e, inclusive relatei aqui e, naquele momento sofria com uma dúvida: Se tudo iria voltar ou se isso iria morrer por ali.

Ouvindo os comentários, gargalhadas – que vinham até da professora -, eu me virei, sentei normalmente, e começei a olhar seriamente para a professora. Percebendo isso e, ainda sorrindo, ela me pediu desculpas, disse que ela se confundiu e eu disse: “Tudo bem. Eu não disse nada!”. Mas, dentro de mim, já surgia a agonia e o desespero. Eu me sento muito longe da porta, mas, minha vontade era de ir embora e nunca mais voltar ali. Pronto, naquele momento eu tive uma espécie de “déjà vu“, me senti no oitavo ano, novamente, quando eu fui perseguido, insultado e humilhado. Me vi na escola pública, cercado de pessoas que olhavam para mim e tiravam sarro da minha cara. No final da aula, a professora me pediu desculpas mais uma vez, eu não respondi e fui embora. Dias depois, eu percebi que a zoação não iria cessar, então, começei a ter as mesmas atitudes que tive no oitavo ano, me trancar, sair de perto, fugir, não sorrir, sempre fechar a cara e tentar ser o mais imperceptível possível.

Ontem, 18 de Agosto, estávamos na sala de aula com a diretora da escola, e a coordenado pedagógica e educacional que estavam comentando sobre a formatura – que por sinal eu não foi fazer.  Então, ela perguntou “quem, de nenhuma maneira, vai fazer a formatura?” e, eu fui o primeiro a levantar a mão. Imediatamente, eu vi alguns comentários surgir e, tive a impressão de ter escutado os tais comentários, mas, como eu não tenho certeza do que eu ouvi, prefiro não postar aqui. Mas, logo pensei “se eu consegui ouvir, é óbvio e até racional que a diretora tenha escutado esse comentário”, mesmo porque, os comentários não foram o pior, o que mais me entristeceu naquele momento foi as risadas descaradas que surgiram em seguida e os olhares indiscretos em direção a mim. Me senti perdido. Se eles não sentem intimidados com a presença da direção, então, onde eu posso conseguir ajuda?

Me sinto perdido. Não quero voltar para aquele lugar, não mesmo. Hoje tive a desculpa de ser meu aniversário e faltar, mas, amanhã eu vou ter que desculpa? E segundo? E todos os demais dias? Vou viver novamente trancado na minha casa, local que eu acho mais seguro. Eu ainda não sei o que fazer. Sei que eu não posso viver dessa maneira, me escondendo, mas, não vou me arriscar novamente, passar toda a humilhação, dor e sofrimento que passei na escola pública. Afinal, estou em uma instituição particular, por que eu sofri muito em organizações públicas.

Ultimamente, tenho pensado sério em escrever um livro. Aliás, isso não é uma ideia nova. Desde 2006, eu tenho essa vontade de escrever um livro contando tudo o que eu vivi, tudo o que passei e, até pegar relatos de outras pessoas que sofreram humilhações e agressões físicas e psicológicas. Hoje, deveria ser um dia em que eu deveria me alegrar, estar feliz, me divertir, não se preocupar, pois, hoje, 19 de Agosto, é meu aniversário. Mas, eu vejo que isso, talvez, não seja possível, uma vez que eu já estou pensando no que fazer amanhã.

4 Respostas para “No Happily Ever After: 2° Parte”

  1. Cara, gosto muuito do seu blog!
    Feliz aniversário \o/

  2. Parabéns! E felicidade tanta quanto possa suportar teu grande coração.

  3. Primeiro de tudo, parabéns pelo aniversário. Acho que você não deve se fechar, trancar-se diante desse tipo de coisa. O bullying (sarro constante sobre a pessoa) só leva as pessoas para a depressão. E não é esse o caminho que você deve seguir. Acho que você tem de confiar no seus amigos de verdade e seguir em frente. Você é melhor que todos eles. Abs

  4. Feliz aniversário!

    Sinto muito que pessoas pequenas existam na sua vida… mas voce precisa lembrar que elas são exatamente isso: PEQUENAS! O seu coração é muito maior que elas – siga a sua vida, seus interesses, suas paixões, e você vai ser muito feliz e deixa-las para traz.

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