Fear
Em janeiro deste ano, dei inicio ao curso universitário de produção fonográfica na Universidade Anhembi Morumbi. Era o primeiro passo para a realização de um sonho: trabalhar com música. Quando era menor, vivia com um caderno de brochura, capa verde, e com uma caixa de lápis de cor. As folhas, quase todas já preenchidas com desenhos, já revelava a minha paixão pela arte, mas, não tão somente a pintura. A minha mãe, era uma grande fã de Raul Seixas, e possui muitos dos seus álbuns. Enquanto ela arrumava a casa ao som de o “maluco beleza”, eu, sentado no sofá da sala, desenhava “O Trem das 7″ e outros desenhos que me vinha na mente. Ficava horas fazendo aquilo.
No entanto, com o passar o tempo, sem perceber, eu abandonei a prática. Vou confessar que as vezes eu ficava irado. Eu sou meio perfeccionista e as vezes desenhava coisas que, ao meu ver, “não ficavam boas” e eu me irritava muito. Pensando agora, acho que não abandonei, eu a subistitui…
Em 1998, eu olhava pela janela da sala a espera de algo especial. Algo que eu queria muito naquele momento e quem me traria era meu padastro. Cada segundo era uma agonia. Mal podia esperar para ter em minhas mãos. Então, finalmente ele chegou e eu logo o perguntei: “Onde está? Cadê?”. Querendo fazer graça, ele disse que não achou, que não tinha comprado. Eu fechei a cara, fiquei sem expressão. Foi uma decepção para mim. Até hoje, se tem algo que eu odeio é você dizer que dia “x” me dará algo e no dia dizer que esqueceu. Entretanto, na verdade, ele não tinha esquecido e depois de ver minha reação, com os olhos já molhados, ele tirou da jaqueta. Gravado no então Olympia, em São Paulo, o álbum Era Uma Vez, de Sandy & Junior.
Eu adorava ouvir aquele álbum. Cantava, dançava e encenava. Curtia muito. Porém, foi quando a trilha sonora da telenovela Laços de Família foi lançada que eu realmente me apaixonei pela música, se é que já poderia me apaixonar mais do que eu já estava apaixonado. Eu nunca pedi o álbum para meus pais. Mesmo naquela idade, sabia que comprar CDs era algo muito caro. Foi então que descobri que uma tia minha, irmã do meu padastro, comprou a trilha sonora da telenovela e eu pedi para o meu padastro a gravar em uma fita cassete. Eu sempre ouvia a faixa 5, “Spanish Guitar”, 6, “Love By Grace”, e 15, “Devolva-me”. A ponto de pegar o controle remoto e cantar para quem quisesse ver.
Então, eu passei a fazer isso sempre. Ouvindo Seixas, Calcanhotto, Braxton, Sandy & Junior, Chiquititas, enfim. O que aparecesse eu cantava. Sempre tive uma grande facilidade para aprender as letras. Basta ouvir uma vez. Elas entram na minha mente e lá ficam em um bauzinho de canções. Com o passar do tempo, outros artistas foram contribuindo para o preenchimento desse. Eu era muito feliz. Me sentia muito feliz.
Eu sempre deixei bem claro do que eu queria: música. Não escondia isso de ninguém. Porém, eu não poderia imaginar, com pouca idade, o que o futuro me reservava. Pessoas invejosas? Bom, talvez não. Simplesmente, pessoa sem sonhos, que não se contentam em ver os outros sonharem e realizarem seus projetos pessoais. Ora, qual a chance de um menino que mora na periferia da megalópole São Paulo ser um artista? – digo isso sem pensar em ser artista reconhecido e com um vasto sucesso comercial, porque isso é um outro ponto.
Eu trabalhava pela manhã, e a noite ia para a universidade. No entanto, uma semanas após o início das aulas eu tranquei o curso. Não tinha como. Primeiro pelo valor do curso, a falta de apoio de meus pais – eu estava pagando um curso de R$ 810,00, tendo um salário líquido por volta de de R$ 490,00.
Acredite, até hoje eu me deparo fazendo o seguinte questionamento: “Você é muito bom em história, geografia, literatura. Poderia ser um professor, um historiador, arqueólogo, geólogo, talvez sociólogo ou filósofo. Até onde levará esse sonho impossível de ser um artista ou trabalhar com música?”. Mesmo assim, eu já me sinto frustrado ao pensar em abandonar a música. Como eu dizia, dentro de mim tinha realmente uma chama para a música. Hoje, estou debaixo de uma chuva, agachado, sendo, por algumas vezes, pisoteado, e tropeçado por algumas pessoas, tentando proteger a chama, que hoje, parece mais uma vela acesa no escuro de meus planos (incertos): Eu quero ser músico, produtor musical, cantor, psicólogo, e trazer uma mensagem e a ação (o que é mais importante) de esperança para o futuro. Mas, olho pra mim hoje e me vejo tão limitado. Bom, isso é questão para outro post que, inclusive, já está em desenvolvimento.
Talvez, esse desabafo tenha ficado de forma irregular. Afinal, eu o iniciei em 18 de outubro, e só o concluir em 1 de novembro. Mas, precisava dizer: eu tenho medo.
