Vivimi: Parte 2 – Claridade (A Rosa)

Estava ali. Parada. Linda e só. Só, e ao mesmo tempo acompanhada. Era belíssima. Suas formas eram perfeitas. E eu distante, olhando para ela, e ela me ignorando. E a cada momento eu olhava mais, até perceber que já estava ali há um bom tempo, até que senti meu corpo se precipitar e ir em direção a ela. Ah! Como era majestosa. Encontrei o caminho e comecei ir até ela. Olhando o caminho, eu vi que estava perto, mas, meus passos, ao invés de ir a seu encontro, pareciam que estava correndo dela. E ela parada. Ali, me ignorando. Desesperado, sai correndo, o caminho ia se estreitando. Doía. A cada momento o caminho ia ficar mais e mais estreito. E ela? Ignorando-me. Agora, já olhava para meus pés, estava correndo, respiração ofegante. Coração a mil. Corria. Mais rápido e mais rápido. E mais rápido. E mais rápido. Até que parei. Senti escorrer da minha pele um líquido. Olhei para mim mesmo. O líquido tinha cor encarnada e escorria de meus braços e pernas. Olhei para mim. E depois para ela. Estava perto. Distante e perto. Mas, percebendo o tamanho da fresta percebi que meu corpo, por ali não passaria. Estendi a minha mão. A dor se projetou em todo o meu braço. E, assim que toquei nela, senti espinhos infiltrarem em meus dedos e na palma de minha mão. Quente. Foi a sensação que senti, junto a dor. Era o mesmo líquido que sentira escorrer pelo meu corpo. Pensei em recuar. Não. Recuar não. Então toquei. Ela não me ignorava mais. Mas, também não me olhava. Senti um desespero invadir todo o meu corpo. Era o medo de feri-la. Superando a todas aquelas sensações, puxei-a pra mim.

Ela veio. Esvaindo-se, devido ao vento, em direção ao meu peito. Pedaços dela se foram junto ao vento. Mesmo assim, eu ainda a tinha pra mim. Era belíssima. Movi e posicionei-me para melhor admirar sua beleza. Neste momento, senti várias pontadas em minhas costas. Como se pequenas facas perfurassem minha pele. Olhando para ela, vi que sua beleza, minuto a minuto, estava murchando. Não era a mesma. Apertando os olhos pelo caminho que havia percorrido, percebi o motivo de tanta dor: espinhos. Ela estava cercada por um imenso jardim de espinhos pontiagudos. Fiquei parado. A dor já era intensa demais e me sentia fraco, devido aos meus ferimentos. Minhas mãos pediam algum refrigério. Segurei ela firme. A dor aumentou. Pensei em soltá-la. Não.

Olhando firme para o caminho que percorrera, decide voltar e imaginar a dor. Comecei a andar. A cada passo sentia minha pele sendo flagelada. Quanto mais rápido, mais dor. Rápido. Dor, e mais dor, e dor e dor. Parei. Ofegante e cambaleante. Já estava mal. Tonto. Sem forças. Só mais um passo. Mais um para o fim da dor. Mais um, para o fim dos ataques. Criei coragem e fui. Neste instante, não havia reparado, mas, um espinho cortar do lado direito do meu abdômen, gerando uma ferida insuportável. Pensei em me entregar. Já não podia mais. Era demais pra mim. Arrependimento. Olhei para ela e já estava quase morrendo em minhas mãos e nada eu podia fazer. A culpa era minha. Eu tinha invadido o seu espaço e roubado ela do local original. Senti-me aflito. Com vergonha de mim mesmo por tudo o que eu havia feito. Dei o passo final.

Corri até algum lugar, onde eu pudesse refrigerar ela. Achei. Coloquei-a ali, na água. E não obtive reação. Estava morta. Murcha. Horrível. Já não tinha a mesma beleza antes. Não era mais vermelha, como antes. Estava triste. Não me ignorava mais, porém, também não me olhava. Sofri. As lágrimas rolaram, doce e salgada, percorriam todo o meu rosto, deslizaram pelo meu pescoço e atingiram alguns ferimentos que os espinhos haviam me deixado de lembrança.

Na verdade, hoje eu entendo que não era lembrança, do dia em que eu tentei roubar pra mim a beleza daquela Rosa. Era a punição, por ter invadido e roubá-la a de seu lugar original, ter roubado e invadido seu lugar. Ando, agora, com as feridas, que só o tempo poderá cicatrizar.

Uma resposta para “Vivimi: Parte 2 – Claridade (A Rosa)”

  1. Michele Maganah Diz:

    Poxa, sinto-me especial de ter lido este texto quando ainda sendo esboçado. Estou ansiosa para ler os outros textos. Continue nos tocando profundamente com suas reflexões, meu querido! Beijos

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