A Onça (Simplesmente Aconteceu)

Não era nada demais. Não havia motivos a que a fizesse destacar entre as demais. Não a primeira vista. Sua beleza, a princípio, não me chamou atenção alguma. Mas, até que era de se destacar, devido ao modo de andar, falar e agir, até mesmo seu olhar, era único. Principalmente os olhares que vinham em minha direção. No entanto, isso não é o suficiente para despertar algo em mim, a princípio. No decorrer do tempo, fomos criando laços de amizade. Frágeis, pois, não me transmitia muita confiança. Percebi, com o tempo, que nós tínhamos algumas coisas em comum, e muitas coisas incomuns. Pensamentos e visões que seguiam na mesma direção. Algumas opiniões que são totalmente opostas, principalmente o modo de lidar com as pessoas.

Criamos afinidades e passamos a trocar e-mails, mensagens, entre outros. A partir dai consolidamos a nossa relação. O problema é que as nossas conversas começaram a tomar um rumo muito quente. A ponto de eu ter atitudes que eu não teria coragem, em outro momento. Mesmo assim, havia ainda um problema maior. E eu sabia bem qual era esse problema. Por conta disso, eu não poderia se quer me aproximar do felino daquela maneira. Sabia que eu não deveria fazer isso. Mas, era tão mágico. Era um momento só nosso. Era gostoso. Fazia-me feliz, como a muito tempo não me sentia. Sufocado por essa situação, resolvi contar o que estava se passando para amigos. Alguns viram isso como uma coisa boa, enquanto outros não. A maioria me aconselhou a “fugir”. Ir para longe. Não faça isso, pois você sairá machucado dessa história, diziam. Mas, meu coração dizia totalmente o contrário. Não tinha como me machucar. Ela gosta tanto de mim. Seus olhares, seu toque, suas palavras. Eu não via como uma criatura tão doce poderia me ferir. Eu deveria ter ouvido os conselhos, apesar de tudo.

Ignorando o óbvio, decidi caminhar na direção que meu coração me guiava. Ascolta il tuo cuore! Fai quel che dice anche se fa soffrire, é a frase que passava em minha mente e soava em meus ouvidos. Eu não enxergava o que os meus amigos viam. Não era como eles diziam. E ainda por cima, havia a culpa pesando sobre meus ombros. Os amigos preocupados. Coração apertado. Pensamentos a mil, tentando desvendar o futuro. Medindo, antemão, as alegrias e tristezas que eu poderia viver com essa história. E claro, que neste momento, o primeiro superava o segundo, a ponto de eu quase nunca ver lágrimas e mágoas. E a onça lá. Seduzindo-me, com sua bela pelagem e seu olhar marcante. Suas garras, em mim, transformava-se em doces carinhos, que me transportavam para outra dimensão. Para um lugar onde eu estava poucas vezes. Seu toque fazia meu coração acelerar. Não via nada de ruim nisso. Sentia-me amado, desejado. E claro, que com as conversas tendo um sentido mais quente, não foi difícil da onça descobrir que eu era virgem. E eu nunca esperei, na verdade, nunca imaginei, nunca passou pela minha cabeça, que o felino estava preocupado com isso. Alguns amigos já haviam me alertado sobre isso, mas, eu não acreditei. Não consegui ver ainda. Em minha visão, a onça não era assim. Meu Deus! Como pude me deixar levar? Sinto-me tão idiota. Eu a coloquei em um pedestal. Não havia lugar melhor, e um cego melhor do que eu para fazê-lo. Felinos, gostam de ser paparicados.

Já era nítido. Estava realmente apaixonado pela onça. Preocupei-me. Quase não dormia pensando em toda essa situação. Eu não poderia me apaixonar. Não. Havia coisas que eu não poderia mudar. Coisas que eu sabia que não iriam mudar – apesar de que, francamente, eu acreditei que mudariam. No fundo. Lá no fundo, quase no chão, eu ainda tinha uma esperança. Mas, eram tantos anos, uma vida. E eu oferecia o que? Quanto tempo? Comparado ao que já havia vivido eu era apenas um risco de lápis, que posteriormente, seria apagado. Até que uma notícia aumentou minhas esperanças. No entanto, isso não me alegrou, pois, eu vi nos olhos do felino a tristeza. A dor, que um dia eu havia sentido. Não sabia explicar. Vi-me em seu olhar. Como posso ficar feliz, sendo que ela estava triste? E, contra meu coração e minha vontade, comecei a torcer para que tudo fosse solucionado da melhor forma possível, apenas para não ver mais aquele olhar em seu lindo rosto. Idiota (Eu). Então, os dias foram passando e algumas coisas foram ocorrendo. Eu nunca soube ao certo o que estava se passando, mas, não era algo bom. Boas sobre o fim estavam ecoando. Mediante a tudo isso, e vendo que minha torcida de nada adiantava, criei esperanças. Ainda mais. Fiz planos. Imaginei ocasiões. Momentos alegres em que poderíamos viver juntos. Mas, esse foi um sonho solo.

Federico Devito, por Italo Gaspar

O relógio não para. O tempo não para. A vida não para. Mas, eu parei. Fui posto de lado, era como me sentia. Um pedaço de carne jogado à onça, mas, naquele momento, ela desprezou. Já vivia outra vida, longe da minha. Então, conversamos, discutimos, e posso até dizer que brigamos algumas vezes. Uma turbulência. Coração apertado, mas, sem muito drama. Apenas medo de perder o que eu (achava que) tinha conquistado. Seguindo os conselhos de amigos, resolvi me distanciar. Apesar de achar isso impossível, mas, cheguei a tentar. Não adiantou. Não conseguia. Sentia-me ligado à onça. Para minha surpresa, ela me contou que não queria me ter longe. Pediu-me. Disse que me queria sempre perto. Que precisava de mim. Em outras palavras ditas, era como se eu fosse um “amor” – segundo minha interpretação, que hoje, acho que foi errônea. Mas, como eu poderia estar errado? O que eu era? Como me descrever? Como é o nosso relacionamento? Então, a ficha caiu. Agora eu entendi. Apesar da onça negar, depois de um tempo, chegou a concordar comigo que não havia outra palavra para descrever. Então, eu fiquei sabendo que eu era um “amor”, outro “amor”. Eu nunca me imaginei nessa situação. Conversamos algumas vezes sobre isso. Porém, toda essa preocupação foi à toa. Depois, disse que precisava ficar só. Necessitava de um tempo só seu. Tempos depois, tivemos uma nova conversa, e eu questionei o que eu era afinal. Como eu era visto por ela. E a resposta foi reta: eu era visto como ‘amigo’. Alegou que não poderia ter algo comigo. Seria algo injusto. Iria me machucar. Em um ato de coragem momentâneo – digo coragem, porque a resposta, já sabia, iria me ferir como (ou mais) que uma faca enterrada em meu peito -, eu questionei se ele queria apenas “me comer”. E, para minha surpresa, a resposta foi “sim”. Então tudo ficou claro. Meus amigos tinham razão. As feridas agora estavam em minha pele. Queimava. As lágrimas que eu derramei, ardiam enquanto rolavam por meu rosto. Doía. Mas, não segurei. Deixei rolar.

Eu não sou inocente. Não sou tão idiota assim. Estou e sou ligeiro. Todavia, eu nunca imaginei que alguém teria a coragem de me dizer: “Quero apenas transar com você”. Eu perdi meu chão. Queria ir embora. Fugir. Sumir. O pedaço de carne, agora, tinha certeza que seria apenas degustado e depois jogado fora. Largado. Como um rato jogado à cobra, mas, que essa ainda vai brincar muito ante de matar. Nem precisava muito. Ela já havia me matado. Doía. A cada batida do meu coração. A cada minuto. Senti-me sufocado. Como se mãos agarrassem meu pescoço e apertasse forte. Acho que não estava preparado para uma resposta tão franca e direta. Agora, as lágrimas não rolavam. Não havia mais lágrimas para rolarem. Já havia chorado tudo que podia. É uma sensação horrível. Como se você não prestasse para mais nada além de satisfazer um desejo carnal. Ignorando meus sentimentos, pensamentos… Ignorando a mim por completo. Ignorando o que eu sou e o que eu vivi. Ignorando-me.

Meus olhos viam coisas que não deveriam. Mensagens, conversas, papos – a meu ver, estranhos. Mas, que para o felino era normal. É o seu modo. Seu jeito de se comportar mediante a algumas atitudes. Eu nunca concordei. Cheguei a brigar por isso. Mas, me sentia abatido demais para levar uma discussão naquele momento. Aliás, relembrar tudo isso agora, neste momento, é difícil pra mim. Tanto que eu comecei esse post às 11h37min, são 14h13min e eu ainda não terminei. São lembranças que me machucam demais. Hoje, me sinto “demais”: Chateado demais. Destruído demais. Confuso demais. Cansado demais. E eu já não queria me sentir assim. Fui apenas um acessório, como se não significasse nada para o felino. Suas garras hoje não me acariciam mais, pelo contrário, ferem-me de uma maneira única. E essas marcas, insistem em não de cicatrizar…

Amigos preocupados, familiares aflitos, enquanto eu me afundava em meus pensamentos, traumas e medos. Abruptamente, senti uma mão me puxar. Era forte. Cheia de esperanças, com uma nova visão. Novo fôlego. Um amigo que conheci há pouco tempo, e que me trouxe uma nova perspectiva. Tenta me fazer ver um novo horizonte, que infelizmente, agora, estou impossibilitado de ver. Embora, tento seguir seus conselhos, ainda sentindo-me “demais”. Enquanto o outro está em casa, e nem lembra de mim…

Simplesmente aconteceu
Não tem mais você e eu
No jardim dos sonhos
No primeiro raio de luar

Simplesmente amanheceu
Tudo volta a ser só eu
Nos espelhos
Nas paredes de qualquer lugar

Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha
Eu tenho vício de me machucar
De me machucar

Lentamente aconteceu
Seu olhar largou do meu
Sem destino
Sem caminho certo pra voltar

Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha
Eu tenho vício de me machucar
De me machucar

Ninguém ama porque quer
O amor nos escolheu você e eu

Não tem segredo
Não tenha medo de querer voltar
A culpa é minha
Eu tenho vício de me machucar
De me machucar

Simplesmente aconteceu
Quem ganhou e quem perdeu
Não importa agora

He never made me feel like I was special

Quero pedir perdão aos meus leitores, pois, eu não consigo ainda descrever muitas coisas. Ainda dói dentro de mim.

8 Respostas para “A Onça (Simplesmente Aconteceu)”

  1. Sinceramente, me senti como se estivesse em sua pele! Não quero que vc se machuque por “onças” que não o corresponderão… Eu sei que é difícil, mas faça de tudo para que essa “onça” seja simplesmente indiferente em sua vida.

  2. Michele Maganah Diz:

    Meu amor… quanta dor neste post!!! Sinto que não é ficção!!! Cuidado com estes sentimentos meu anjo, eles são destruidores! Faça assim mesmo, ponha-os para fora. Todos eles! Estou aqui, para quando quiser desabafar, serei todo ouvidos! Te curto muitão!

  3. Marcela Ferraz Diz:

    Desde sempre conhecemos os felinos por serem traiçoeiros… Mas mesmo assim nos iludimos com os olhos brilhantes, as carícias doces, o jeito carinhoso com que nos tratam. Não precisa ser ingenuo para se deixar levar. Mas precisa ser forte para esquecer e quando essa força já foi levada pelo felino? Ai você deverá se lembrar de que não está sozinho. As onças estão por todo lado querendo “apenas” nos devorar… Mas os amigos estão ao nosso lado para aconselhar e quando os conselhos não forem ouvidos… Estarão ao nosso lado, não para julgar, mas para ser o ombro para chorarmos. Pense em você. E lembre-se que você tem ótimos amigos ao seu lado ! Te amo amigo!

  4. “Sabe por que caímos ? Para aprendermos a levantar….” Por isso não se deixe abater, levante-se e olhe para frente, aprenda com seus erros e fique cada vez mais forte!

  5. Fernanda Souza Diz:

    Viver, é isso que vc está fazendo. Não tenha medo do que poderá aparecer em seu caminhos. Às vzs somos surpreendidos por coisas que jamais pensamos que poderiam acontecer conosco, sinto que com vc foi assim. Um conselho que dou à todos os meus amigos, quando “onças” os machucam, os ferem e dizem que nada fazem.. É que sejam sempre SUPERIORES. Sorria quando tiver vontade de chorar, por mais falso que o sorriso seja. SORRIA SEMPRE. Coloque sempre um sorriso no rosto, pq com o resto, “ninguém” se importa msm (muito menos as “onças”). Um sorriso te coloca no alto, um sorriso te abre portas, um sorriso te deixa melhor. Fica com Deus e conte comigo quando precisar! Beijos!

  6. Não é facil! Já passei por tais situações e a ferida demora a cicatrizar! MAs depende muito se queremos ou não que a ferida cicatrize! Tente ao máximo esquecer o passado! Sai do “assim foi” e vá para o “assim eu quis”. Pois querendo ou não, você fez parte do processo, você fez suas escolhas e não foi um acaso!

    • Sim, eu tenho essa consciência. Entretanto, receio que seja difícil, até mesmo porque, trabalhamos juntos. Eu expliquei a situação a um grande amigo e ele chegou a seguinte conclusão: “parece que ele gosta de te ver sofrer”. Segundo esse amigo, sem tirar a minha parcela de culpa, a “onça” gosta de me ver “sentindo o culpado por algo, que muitas vezes, não tem lógica”. Eu juro à você que eu estou lutando muito. Porém, parece que algumas pessoas tem um faro para as minhas fraquezas – talvez, porque eu exponha essas fraquezas. Muito obrigado por suas palavras e por tudo o que você faz por mim.

  7. Muito bom, pena que a beleza se reflete em uma obra real da dor que todos nós passamos, a dor de amor.
    Aquela dor que mistura o real com o irreal, onde o que resta no fim é só lembranças, lembranças as vezes de coisas que nunca aconteceram, ou que morreram antes mesmo de acontecer.
    Ler suas palavras me lembraram quando eu também colocava em palavras cada fatia do meu coração, e isso é muito bom, são poucas pessoas que conseguem colocar em palavras um esboço real do sentimento que foi vivenciado.

    O sentimento que você passou lhe serve de lição, porque tudo que não nos leva para frente, não nos deixa no mesmo lugar, e a vida é um rumo de histórias para contar.

    Você arrazou! Pois não perdeu o amor por você mesmo, a vida continua!

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